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CÓLICAS: Se não tivesse essa dor

Dados recentes estimam que 67% das mulheres sofrem de cólicas menstruais. Estudo da UFRN busca tratamento para amenizar sintomas e assegurar qualidade de vida da população feminina

Pesquisadora Larissa Varella mostra à reporter Lívia Rodrigues como
funciona a eletroestimulação. Foto: Anastácia Vaz.
Eu sinto tanta dor que chego a desmaiar”. Essa é uma situação extremamente comum na vida das mulheres que menstruam. É o caso de Ana Beatriz Cordeiro, de 20 anos. “Tenho cólicas desde quando comecei a menstruar e elas sempre foram muito fortes a ponto de não conseguir levantar da cama. Começa no baixo ventre e se espalha por todo o meu corpo. As costas, as pernas, não tenho forças para fazer nada”. Além das temíveis dores, outros sintomas associados como diarreia, enxaqueca, vômitos e tonturas estão presente todos os meses na rotina da população feminina.

Cientificamente nomeada como dismenorreia, a cólica menstrual tem início com os ciclos menstruais ovulatórios, cerca de dois anos depois da primeira menstruação. Ocorre durante o período fértil, fase do mês em que a mulher está ovulando e há a liberação do hormônio chamado prostaglandina, substância que promove a contração do útero para a eliminação do sangue menstrual. Esse processo pode ocasionar desde desconfortos na região pélvica - ou baixo ventre - até dores intensas, que chegam a ser incapacitantes.

A dismenorreia pode ser classificada de duas formas, primária e secundária, sendo ambas condições patológicas associadas ao ciclo menstrual. Na primária, ainda não se tem uma causa definida para essas alterações, o fator mais provável é o aumento da prostaglandina. O ponto principal é que esta disfunção não está relacionada a uma outra condição pélvica. Já a dismenorreia secundária tem relação na liberação do hormônio associado a alterações do sistema reprodutivo, por exemplo: endometriose, mioma e doença inflamatória pélvica.

As dores eram tão insuportáveis no início que eu pensei: preciso procurar um médico. Depois de vários exames, para a minha surpresa, descobri que não era nada. Só existem mulheres que sofrem muito com cólica e têm que aprender a conviver com isso”, conta a estudante. Assim como Beatriz, pesquisas recentes estimam que 67% das mulheres em idade reprodutiva convivem mensalmente com os sintomas da dismenorreia primária e os distúrbios emocionais que a acompanham.

Ouça AQUI o depoimento de Ana Beatriz Cordeiro

Desde a adolescência eu sofria com cólicas, enxaquecas e até dores nas pernas. Não conseguia trabalhar. Sempre que passava por um nível de estresse alto era pior. Após o falecimento do meu pai, cheguei a ficar dois dias de cama”, relata a fiosioteraputa Vaneza dos Santos, de 32 anos.

Com mobilidade reduzida, instabilidade emocional e diminuição da funcionalidade, o tema já vem sendo discutido há anos nos meios educacionais e judiciais. Estava em trâmite desde 2016 o Projeto de Lei (PL 6784/2016), do deputado federal Carlos Bezerra (PMDB-MT), que acrescentaria à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o direito a um afastamento de três dias para tratamento desses sintomas. O texto previa a compensação das horas não trabalhadas, a fim de não haver prejuízo para o empregador. A proposta, no entanto, foi rejeitada pelas comissões de Defesa dos Direitos da Mulher e de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços em 2018. A justificativa usada é de que a legislação já permite o afastamento para tratar da saúde dos trabalhadores, o que engloba enfermidades relacionadas ao ciclo menstrual, caso de endometriose e ovários policísticos.

Mas, como citado anteriormente, a dismenorreia primária não é uma enfermidade relacionada a outras doenças da região pélvica, sendo lida geralmente como parte integrante do ciclo menstrual normal, o que dificulta o processo de regulamentação.

A endometriose é uma doença que acomete em torno de 10% das brasileiras. Embora seja uma condição altamente desfavorável, enquadra-se em uma porcentagem bem menor diante da dismenorreia primária, revelando que a maioria da população feminina sofre com esta condição e não está sendo devidamente amparada.

Tratamentos
Em busca de resultados efetivos e que possam melhorar a qualidade de vida das mulheres, a área da saúde vem trazendo tratamentos cada vez mais avançados. Os anti-inflamatórios, forma de tratamento mais recomendada por ginecologistas,  não são mais uma opção para boa parte das mulheres, mesmo que combinados com analgésicos. “Tive diversos episódios de dores tão insuportáveis que não conseguia trabalhar, não procurei tratamento antes, pois tomava um anti-inflamatório, porém desenvolvi alergia a estes medicamentos”, diz Vaneza.



Arte: Jaime Azevedo
A fisioterapia é uma das áreas de maior destaque na aplicação de métodos para reduzir os sintomas ou até mesmo eliminá-los. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) vem fazendo um estudo desde 2015, com estímulos elétricos para tratar as cólicas menstruais. O procedimento, chamado eletroterapia, utiliza um aparelho portátil, que pode ser usado como autotratamento pelas mulheres, sendo feito na própria casa. De acordo com a pesquisa da Unicamp, quando uma pessoa está com dor, o corpo libera substâncias que são conduzidas pela medula espinhal até o cérebro, que recebe o alerta e transforma essa sensação em dor. Ao colocar o aparelho sobre o local da dor, os pesquisadores verificaram que os estímulos elétricos impedem que a informação sobre o mal-estar chegue ao cérebro e, assim, o organismo entende que não há nada de errado.

Com base nesses aspectos, uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) tem o objetivo de combater as cólicas menstruais e os diversos sintomas associados a ela a longo prazo. O projeto se chama Efeitos da Eletroestimulação Transcraniana com Corrente Contínua (ETCC) nos sintomas da Dismenorreia Primária e teve início na Faculdade de Ciências da Saúde do Trairí (Facisa), pelo professor Rodrigo Pegado, que tratava as dores da Dismenorreia, da Chikungunya e da Fibromialgia.

A partir desse projeto inicial, e sob a orientação da professora Maria Thereza Micussi, a  aluna de doutorado em fisioterapia Larissa Varella estuda como os efeitos da ETCC podem reduzir as dores e melhorar a funcionalidade feminina durante o período menstrual, incluindo fatores emocionais e regulamentação do sono.

Como funciona o tratamento?
As pacientes recebem a Eletroestimulação Transcraniana, com corrente elétrica contínua de baixa intensidade, nos cinco dias que antecedem o fluxo, em sessões que duram 20 minutos. "É importante que os estímulos se iniciem antes para que, ao entrar no ciclo, a paciente tenha a proteção da corrente, assim ela já não sente dor desde o primeiro dia" explica Larissa.

No primeiro dia de menstruação, a paciente e a pesquisadora têm até 24h para fazer avaliações gerais como nível da dor, qualidade do sono e funcionalidade durante o dia. No mês seguinte, as participantes classificam diariamente estas variáveis até o momento de repetir o tratamento, mais uma vez, cinco dias antes da menstruação. Depois de mais 30 dias de auto-observação das dores e outros sintomas  devidamente anotados, acontece uma reavaliação, no início do terceiro ciclo.

É um tratamento simples, tranquilo e que não tem repercussões negativas, evitando a utilização de drogas que trazem efeitos colaterais e mascaram a dor. A proposta da ETCC é trabalhar o centro cerebral da dor, fazendo neuro modulações e mudando a resposta ao estímulo da dor. Por isso, a ideia é estimular uma outra área cerebral, que também tem relação com a dor, o Córtex Pré-frontal Dorsolateral, e ver se conseguimos obter um efeito sobre essa sintomatologia que incomoda tanto”. Relata Larissa sobre a pesquisa.

Equipamento utilizado no tratamento emite corrente elétrica
contínua de baixa intensidade. Foto: Anastácia Vaz
Primeiros resultados
A pesquisa já atendeu a cerca de 45 mulheres que se encaixam dentro dos requisitos e concluíram os procedimentos. Os resultados, mesmo que ainda não publicados, pois a pesquisa está em andamento, são extremamentes satisfatórios e nenhuma das pacientes reclamou de ter sentido as dores de quando se iniciou a pesquisa. Os sintomas que aparecem ao longo dos meses são tão pequenos que muitas vezes chegam a ser insignificantes.

Vaneza foi uma das pacientes do projeto e conta como foi a sua experiência. “Eu já desmaiei, vômitos e diarreias eram coisas comuns. Foi quando recebi a proposta de participar da pesquisa, fiz todo o procedimento e no mês seguinte as dores foram embora. Isso já faz um ano. Não tenho mais as dores que sentia, nem enxaqueca. Em alguns meses senti um pequeno incômodo, mas só”.

Larissa conta que houve, inclusive, de uma participante interromper o procedimento no meio, pois  não sentia mais cólicas durante as avaliações periódicas e chegou a nem se lembrar mais dos incômodos. Naturalmente, a pesquisadora recomenda a conclusão de todas as sessões e avaliações para resultados mais confiáveis, não só nas voluntárias, mas especialmente, para a resolução do estudo.

Como participar
Para se voluntariar no projeto, as mulheres devem ter pelo menos 18 anos e atender a alguns outros pré-requisitos, como cólica forte e incapacitante normalmente seguida de enjoo, enxaqueca e alteração do sono. É preciso também que se tenha ciclo menstrual regular, para saber o dia exato que começa a menstruação e iniciar o tratamento.  É importante frisar que estes sintomas devem ser exclusivos da dismenorreia primária, então as mulheres diagnosticadas com doenças referentes à dismenorreia secundária não podem participar.

As interessadas podem enviar e-mail para pesquisadismenorreia@gmail.com manifestando interesse em participar do projeto e aguardar o contato da pesquisadora.
Agência de Comunicação da UFRN.

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