SUPERAÇÃO: Jogadora de futebol Ludmila relata sua vida de superação ao abandono da mãe

Jogadora Ludmila relata escolhas que fez para não entrar no mundo das drogas e sobreviver ao abandono da mãe

Ludmila: Getty imagens.
Eu tinha três anos quando saí do orfanato. Não lembro de muita coisa. Só lembro da minha infância a partir dos oito anos. Eu ia para a escola sozinha, mas às vezes via a mãe da coleguinha por ali, e batia aquele sentimento. A gente sempre pensa em ter a nossa mãe.

A minha mãe me contou que meu pai batia muito na gente, ele chegava bêbado, batia nela... Eu sei por partes, mas não sei se é verdade. Dizem que ela decidiu colocar a gente em um orfanato para nos tirar daquele ambiente. A minha família fez o que podia fazer por mim e pelos meus irmãos: colocou na melhor escola, e onde a gente morava tinha pessoas boas.

Foi uma infância boa, mas triste:
Para quem foi abandonada, é bem difícil dar carinho. Hoje em dia, eu tenho contato com a minha mãe. Tento o máximo possível dar carinho para ela, mas é difícil. Não sei o que aconteceu ali, eu não tenho lembrança de nada. Então, não vou julgar.

Eu já perguntei para a minha mãe sobre o passado, perguntei por que eles fizeram isso. Mas ela não é muito ligada nessas coisas. Ela bebe, então ainda tem esses problemas. Eu também evito. O que eu tenho de fazer é tentar ajudá-la, dar um abraço, só isso. Não tento fazer mais nada, sabe? Eu não teria coragem de perguntar se ela sente orgulho de mim. Não tenho coragem.

Outro caminho:
Desviar para um caminho ruim teria sido fácil. A gente, que mora na favela, tem esse caminho em todo canto, a todo momento. Até indo para o trabalho.

Eu tinha amigas que usavam drogas. A minha melhor amiga morreu por conta de drogas. Eu tinha 21 anos, e ela também. A Thábata jogava muito. Ela poderia ter chegado muito longe. E não digo isso porque é minha amiga. Se ela tivesse tido mais força de vontade, ela teria chegado lá.

Eu era uma menina rebelde e bagunçava na escola. Eu tinha várias opções e poderia ter escolhido um caminho ruim. Um mês depois da Thábata, morreu a minha irmã mais velha. Também por causa de drogas.

Eu era muito próxima dela. Eu e minha irmã éramos muito coladas, igual chiclete. A gente só foi se separar um pouco quando ela começou a usar drogas. Aí, a gente começou a se dar mal. Ela era uma pessoa má e uma pessoa do bem, ficava mudando entre uma coisa e outra por causa das drogas. Era difícil lidar com isso. Foi por causa de droga que a gente começou a se separar, e foi por causa de droga que ela morreu.

A minha tia tinha os sete filhos dela, e tinha também eu, minha irmã e meu irmão. Os nossos primos queriam o carinho da mãe deles, então a gente brigava muito.

Se fosse para dizer algo para a minha tia, eu diria 'muito obrigado'. Se eu estou aqui, é por conta dela. Se ela não me ensinasse os caminhos certos, as pessoas em quem eu tinha de confiar, acho que eu não estaria aqui. Eu dei muito, muito trabalho para ela. Às vezes, quando vou para casa, eu nem fico muito perto dela, já vou para a rua.

Muita gente falava mal da minha tia por minha causa e da minha irmã. Por ela não ter sido minha mãe. Eu não sei explicar, mas é diferente. Tudo que ela fez por mim foi importante. Mas eu vou, dou um abraço nela e vou embora. Não é aquela coisa de ficar 24 horas junto.

Quando eu fui convocada para a Copa, ela só me desejou boa viagem, me deu um abraço... É assim a nossa convivência, a gente não conversa muito. A minha tia é um pouquinho tímida, ela é bem na dela. Eu sei que ela tem orgulho de onde cheguei.

Tenho vergonha por tudo que fiz a minha tia passar. Eu fico com vergonha mesmo, sabe? Eu aprontava muito, e as pessoas achavam que ela não me dava educação. Assim como eu tenho vergonha por ela, é possível que a minha mãe tenha vergonha pelo que fez com os filhos”Ludmila.

Comentários

Postagens mais visitadas