HUMANAS: Afinal, que sociedade queremos ser?

GENEBRA – Sócrates – o filósofo – já dizia: “a vida não examinada não vale a pena ser vivida”. No atual debate que existe no MEC, essa frase pode parecer ultrapassada. “Em alguns anos e dependendo das políticas adotadas, não me surpreenderia que alguns acabem só sabendo da existência do outro Sócrates”, o doutor.

Reprodução.
Por Jamil Chade

Mas a realidade é que tal princípio é absolutamente atual, principalmente para uma nação que tenta superar divisões profundas. Mas para que uma sociedade embarque nesse exercício diário de examinar seu passado, sua existência e saber para onde vamos, são as disciplinas como filosofia, ciências sociais e humanas que nos darão os instrumentos.

Quando tais instrumentos são considerados como luxo ou avaliados como não sendo um papel do estado, a pergunta óbvia que faço é a seguinte: que sociedade exatamente estamos escolhendo ser?

Sim, tais disciplinas podem ser substituídas por outras supostamente mais práticas, com um resultado imediato talvez mais confortável para aqueles que sofrem de miopia. Nos EUA, dezenas de universidades estão sendo pressionadas, diante de cortes de orçamentos, a rever seus departamentos de humanas. Muitas outras já iniciaram uma campanha para conseguir sobreviver e "provar" sua utilidade à sociedade.

Se não encontrarmos recursos para desenvolver tais instrumentos de reflexões e consciência, estamos eliminando de nossa sociedade, acima de tudo, sua capacidade de refletir sobre nossa existência, sobre nosso futuro.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, uma lei aprovada em Washington aprofundaria a estratégia americana de focar seu desenvolvimento na democratização da educação. Mas o que pesquisas hoje revelam é que uma iniciativa que tinha como objetivo treinar cidadãos para o mercado de trabalho acabou também revolucionando outros segmentos.

A G.I. Bill de 1944 permitiria a todos os americanos que tinham retornado do conflito um acesso praticamente livre para estudar. De quebra, a lei acabou derrubando os muros de universidades a milhares de jovens de classe média e baixa que jamais teriam tido acesso.

Em 2006, o escritor Edward Humes resumiu o impacto dessa manobra do governo e revelou que aquele acesso havia transformado "o Sonho Americano" para sempre. Tal iniciativa de 1944 gerou, ao longo das próximas décadas, três ministros da Corte Suprema, três presidentes, uma dúzia de senadores, mais de 20 ganhadores do prêmio Pulitzer, 238 mil professores, 91 mil cientistas, 67 mil doutores e milhares de outros profissionais. Isso sem contar com 14 ganhadores do Prêmio Nobel. Para cada um dólar investido em educação, o retorno foi de sete para a economia.

Mais importante do que tudo isso, Humes alega que a iniciativa permitiu educar milhões de cidadãos que transferiram para suas vidas diárias as reflexões de ciências humanas e criar um sentimento de uma comunidade de destino.

O estado assumiu seu papel na educação, inclusive aquela que visa pensar e questionar o próprio estado e a sociedade. O resultado foi um fortalecimento da democracia e, ao longo de décadas, a derrubada de discriminações profundas que se mantinham na sociedade americana.

Isso tudo por conta do fato de que locais de criação e pensamento que eram bastiões da elite ganharam um novo público. Carreiras até então destinadas apenas a quem poderia pagar passaram a ser democratizadas, inclusive a filosofia.

Não há nada contra focar a estratégia de ensino no treinamento de profissões e direcionar esforços a atender ao mercado. Mas isso não pode ocorrer jamais em detrimento da reflexão de quem somos. E tal exercício não pode ser um privilégio daqueles que tem recursos para pagar.

Se depois de querer mudar o passado, o MEC agora se empenhar em reduzir a capacidade de pensarmos – juntos – nossas existências e nossa sociedade, o que também estaremos eliminando é nosso futuro.

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