ENTREVISTA: Professor Bruno Coriolano concede entrevista ao Blog

Bruno Coriolano de Almeida Costa é filho de Antônio Coriolano da Costa e Rita Batista de Almeida Costa, natural de Apodi.

Bruno é graduado (licenciatura) em Letras, língua inglesa e literaturas inglesa e americana pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). É especialista em inglesa pela FVJ e mestre em inglês: Estudos linguísticos e Literários pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bruno Coriolano tem ainda certificação internacional em ensino de língua inglesa como língua estrangeira (TEFL).

Bruno sempre estudou em instituições públicas – exceto a especialização e o TEFL -, segundo ele "desde o ensino fundamental I (primeira série) até o mestrado. Na disso me serviriam se não fossem os anos de experiências em empresas privadas de ensino, pois é na prática e sob pressão que aprendemos a lidar com coisas que nenhuma teoria consegue dar conta de explicar". 

Na entrevista conversamos sobre um grande número de assuntos. Desde religião, educação, passando por assuntos do dia a dia até a politica, os políticos, corrupção e opções para 2018.

Segue entrevista cedida por Bruno Coriolano abaixo:

Blog: fale sobre suas ocupações
Comecei minha carreira sendo professor de História e depois de Ciências. Sempre quis ser professor de da disciplina de História – basicamente por causa de um bom professor que tive no Ensino Médio (Elmo Alves Torres) –, mas acabei optando pela área de Letras quando, na verdade, eu queria Direito. É uma confusão, mas acabei ficando mesmo com a opção mais lógica na época: Inglês. Além de ter facilidade, eu pensava em mercado de trabalho e foi a melhor decisão que já tomei até hoje.
Já fui professor substituto no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), no campus de Mossoró (RN) e no Departamento de Línguas Estrangeiras (DLE), na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Campus Central.

Tive experiências como professor de língua inglesa, literatura americana e inglesa, tradução e ciência e história, bem no início da minha vida profissional. Já atuei nos ensinos básico e superior, inclusive em programas de pós-graduação (lato sensu).
A maior parte da minha vida profissional foi construída na iniciativa privada (14 anos), de onde tirei os maiores ensinamentos e onde aprendi a trabalhar sob pressão e entregar resultados rapidamente. Muita gente que conheci temia tal setor e foi exatamente aí que enxerguei a possibilidade de crescimento profissional. Comecei em Apodi (Entre 2001-2002), mas fiz carreira mesmo em Mossoró.

Atualmente sou professor universitário no departamento de Linguagem e Ciências Humanas no curso de Letras/Inglês na UFERSA, além de coordenador geral do programa do governo federal Idiomas sem Fronteiras, na UFERSA. Também exerço papel de presidente da comissão de elaboração de provas de proficiência da UFERSA e faço parte, como membro, da comissão de internacionalização da referida universidade.

Blog – O que você objetivo com sua profissão?
No momento estou pensando mesmo em consolidar meu trabalho na universidade. Não acredito que consegui me adaptar 100% ao ritmo ainda. Tenho me dedicado muito, mas ainda existem setores que desconheço e ainda tenho que mostrar produção para poder querer passar para uma próxima fase

Blog – Percebi que você tem alguns portais. Qual seu objetivo com eles?
Se estivermos falando dos blogs que tenho, não criei nenhum com nenhum objetivo específico, mas um deles (www.portaldalinguainglesa.blogspot.com.br) tornou-se algo maior do que eu esperava.

Criei o Portal da Língua inglesa quando voltei de uma experiencia nos Estados Unidos, em 2007, mais para preencher meu tempo, pois quando voltei o semestre letivo daquele ano já havia iniciado e eu não estava conseguindo (re)colocação imediata no mercado.
Recebo um número muito alto de visitas por dia, mas atualmente estou quase sem tempo para postar algo nele.

Criei o blog Leituras de Domingo (www.leiturasdedomingo.blogspot.com.br) quando morava em Florianópolis (Santa Catarina) mais para passar o tempo e continuar tendo uma desculpa para escrever e ler em língua portuguesa, pois eu estava tendo contado com leituras basicamente em inglês e estava começando a ler, aos poucos, em francês, língua que estudei inicialmente em Santa Catarina. 

Achei que precisava manter a prática que eu estava acostumado –  escrever em língua portuguesa –, mas devido às inúmeras leituras que tinha que fazer em língua inglesa, pois meu mestrado era em inglês, quase não tinha tempo para ler em português, então decidi criar o blog para escrever crônicas aos domingos (daí o nome e o único dia da semana no qual publico algo nele).

Com o tempo nós vamos perdendo o controle dessas coisas. Não tenho nenhuma pretensão com este blog. Vou publicando quando tendo algo para compartilhar e vou deixando ele sem postagens quando não tenho nada para ser exposto.

Blog - Fale de um modo em geral da importância de leitura.
Bom, a leitura é de extrema importância, seja por prazer ou para realizar qualquer atividade. Infelizmente, a nossa média nacional em termos de leitura é muito baixa, o que pode indicar um caminho errado que estamos seguindo já na base. 44% da nossa população nunca leu um livro inteiro na vida e outros 30% jamais comprou um único livro sequer.

Mas a leitura envolve muitas outras coisas, como a interação entre o que se lê e o que se entende. Se nosso nível de leitura é muito baixo, os níveis de intepretação e compreensão de textos não poderiam ser diferentes.

É incrível como a média de brasileiros que lê, mas não entende absolutamente nada é grande. As consequências vão desde coisas simples, como ler e entender o que está escrito em um produto qualquer de supermercado, até a compreensão de um discurso simples de um político. Desconsiderando que muitos dos nossos políticos são semiletrados, não compreender o que o outro diz é muito perigoso e pode gerar uma nação completa de gente manipulável.    

Em tese, os evangélicos leem mais porque leem a Bíblia, mas isso não os torna melhores leitores. Tal livro não é de fácil compreensão, sobretudo pelo uso excessivo de simbolismo e metáforas, o que gera uma confusão entre separar o que é ficcional de histórico – no sentindo de real.

Blog – Em média, quantos livros você lê por ano?
Ler é uma das atividades que faço por dois motivos: 1) vida profissional. Preciso estar lendo sempre, sobretudo porque tenho disciplina teórica na universidade e 2) por prazer mesmo.

Somente ano passado, li 26 livros e em 2015, li 41. Em três línguas (português, inglês e espanhol). Lógico que tem uns livros que leio “por obrigação”, pois se tivesse que não lê-los, não o faria. Mas mesmo assim, quando inicio a leitura vou até o final. Até o momento, de janeiro para cá, já completei 10 livros.  

Não contabilizo aqui os árticos que temos que ler e os livros já lidos, que vez ou outra tenho que reler para preparar minhas aulas. Ler muito, como já deixei subentendido, é uma caraterística básica de profissionais da área de Letras.

Blog – Qual a melhor maneira de aprender uma outra língua? Qualquer um pode aprender uma língua estrangeira?
Primeiramente, é muito difícil dizer qual é a melhor maneira para se fazer ou aprender qualquer coisa nesta vida. Não sabemos como orientar todos da mesma maneira porque cada pessoa tem suas características próprias. Alguns aprendem melhor ouvindo, outros aprendem melhor vendo e outros aprendem melhor fazendo algo – são pessoas mais práticas.

Se considerarmos que qualquer pessoa pode fazer uma dieta, podemos – a grosso modo – dizer que qualquer um pode aprender a falar outra língua. Mas nem todos obtêm os mesmos resultados em uma dieta. Por que? Porque cada organismo vai reagir de uma maneira, certo? Acredito que na aquisição/aprendizagem de idiomas os resultados sejam – falando de forma simples – parecidos.

Primeiramente, você vai ter que definir o que significa “aprender outra língua”. Se por aprender você diz falar, ler, entender e escrever na outra língua, que normalmente chamo de língua adicional, aí você vai precisar primeiro de uma boa orientação. É preciso procurar um profissional de línguas para entender melhor sobre os processos de aprendizagem.

Sem entrar em uma discussão profunda, eu diria que quanto mais cedo você tomar a decisão de aprender uma outra língua, melhor. Tem uma hipótese chamada “período crítico”, na qual um indivíduo teria dificuldade de aprender uma outra língua depois da puberdade, mais ou menos. Embora seja debatida, tal hipótese tem um fundo de razão. Se percebemos que estamos vivendo cada vez mais na correria e dividindo nossos dias entre trabalho e várias outras obrigações (e acrescente aí as distrações das redes sociais), fica sempre bem mais complicado de dar conta de aprender algo tão complexo quanto outro idioma.  

Resumidamente: é sim possível aprender uma língua depois do período crítico, mas exige mais esforço do que exigiriam de uma criança ou adolescente (no início da adolescência). É bom deixar claro aqui, mais uma vez, que É REALMENTE MUITÍSSIMO MAIS DIFÍCIL aprender uma língua na fase adulta da vida, mas não é impossível.

O certo é que os benefícios de saber outra língua são vários, que vão desde de abrir novas fronteiras – tanto físicas quanto abstratas –, passando pela facilidade em aprender outras coisas, até a prevenção de doenças, com o Alzheimer

Blog – Qual inglês devemos aprender, o inglês americano ou inglês britânico? O mandarim vai tomar o lugar do inglês no futuro?
Nem um, nem outro. Quando entramos em sala de aulas ainda vejo vestígios dessa dicotomia, mas hoje em dia os professores tentam trazer mais “vozes” para as aulas de inglês.

Como a língua inglesa ganhou status de língua franca e isso mudou as relações interpessoais, houve também uma mudança na própria língua, que ganhou outras características.

Hoje temos mais falantes não-nativos da língua inglesa do que falantes nativos. São quase 3 não-nativos para cada 1. Não faz mais sentindo, por tanto, dizer que devemos ensinar inglês americano ou britânico. Os próprios professores, em sua maioria, não têm a língua inglesa como língua materna, meu caso por exemplo (minha língua materna é o português brasileiro).
O próprio professor hoje em dia é o modelo nas aulas. Ele não precisa fazer com que os alunos tentem imitar falantes X ou Y. Há uma diversidade maior agora. É possível ouvir argentinos, japoneses, chineses chilenos falando inglês nos próprios materiais didáticos.

Mas ainda é clara a influência da visão nativa como modelo em termos de mercado. Na Ásia, por exemplo, isso ainda é muito forte.

Não posso dizer que alguma língua vai tomar o lugar da língua inglesa no futuro. Posso sugerir que isso é pouco provável pelo menos nos próximos 100 anos. A língua já está muito globalizada e até mesmo o número de chineses falando inglês está aumentado incrivelmente.

Além disso, acho que falar inglês é bem mais fácil do que mandarim e, considerando que ninguém vai esperar uma mudança tão radical do dia para noite, fazer uso de uma língua já tão utilizada e “pronta” para ser colocada em prática é bem mais sensato. Ninguém vai investir em anos de estudos em mandarim apenas para poder publicar um artigo cientifico, certo? É mais rápido e prático fazer isto em inglês.

Blog – Como você vê a educação do nossos país?
Vejo com certa preocupação e aqui eu estou falando como um cidadão e não como professor. Estamos focando nossas energias em coisas que não considero primarias.
Falamos em dar oportunidades e a própria escola, ao que me parece, as retira. Muitas vezes vemos a prevalência de apenas uma visão, dentro de um ambiente dito plural. Para mim, isto é a primeira e maior contradição que existe na escola.

Vejo muitos debates importantes, mas que estão sendo deixados de lado. Acredito que temos outras coisas mais relevantes. Estamos preparando os alunos para o mercado de trabalho? Qual mercado, apenas o brasileiro? Estamos então andando na contramão do mundo, não? Como podemos falar em internacionalização da educação se ainda estamos olhando apenas para dentro?

São tantas as questões aqui que me parece que a resposta para esta pergunta iria levar horas para sair – pelo menos de forma satisfatória.

Não acho errado debater gênero em aulas, mas será que não existe algo bem mais relevante para ser discutido nas rodas de educação como a própria qualidade da escola pública brasileira? Esse papo de colocar um “X” em palavras (meninxs, próprixs, prazadxs...) me parece não ser algo que vá mudar muito a vida das pessoas.

Não me sentiria excluído, se eu fosse uma mulher, unicamente porque alguém escreveu um e-mail começando por “Prezados colegas...”. Não vejo nada de errado aqui. (Eu sei que o debate não é somente em relação a isso. Estou ciente, mas, como falei, não iria conseguir explicar em poucas palavras aqui).

Acho que este tipo de debate está sendo usado para maquiar algo maior. Não que não possamos debatê-lo, mas acho tal assunto secundário. Poderíamos chamar a atenção dos alunos para a importância de respeitar a todos. Isso já seria algo bastante abrangente por si só. Não acho que precisamos ficar anos discutindo qual o nome que deveríamos colocar na porta dos banheiros (unissex ou mininxs) ou coisas do tipo. Em cinco minutos de debate sobre liberdade do indivíduo – desde que se respeitem as leis estabelecidas – eu já me sentiria convencido de que todos têm o direito de serem respeitados e incluídos na sociedade.

Falamos em inclusão, mas esquecemos de melhorar qualidade da educação, não?  Eu criei minha própria oportunidade de estudar fora do pais e não vi esse tipo de debate por lugar algum. Não é algo que a escola pega pelo braço e diz “olha, de agora em diante você vai usar o gênero neutro e usar um banheiro compartilhado porque assim é o correto”. Eles estão mais preocupados com outras coisas, que por sinal são bem mais relevantes.

Deveríamos olhar para educação como algo que inclui várias vertentes, mas duvido que seu professor se sinta à vontade com alunos que duvidem dele, o que é estranho, pois a escola deveria ser plural, não?   

Blog – Qual a sua opinião sobre o “politicamente correto”?
Acho que é uma forma de nivelar o debate por baixo. Eu entendo a motivação por trás do politicamente correto, mas acho que o uso dele em escolas e universidades, por exemplo, acaba maquiando algo.

Não podemos entrar em um debate e dizer algo a mais porque temos que tomar cuidado com o que vai ser dito, pois qualquer coisa dita, mesmo sem aquela intenção, pode ser utilizada como contra-argumento. Pior, de forma que desvie o debate para algo que nem era o foco inicial. Já vivi isto muitas vezes, mas não em sala de aula, pois foco apenas no que tenho que fazer.

Muitas vezes, começamos a falar em algo e o debate acaba em um assunto completamente diferente e de baixíssimo nível. Depois de tudo, fica difícil acompanhar a linha de raciocínio de determinados indivíduos porque nem eles mesmos sabem em que ponto querem chegar.

Estava visível na última campanha para presidente (2014), por exemplo. Os assuntos eram jogados pela Luciana Genro para que depois ela mesma tivesse algo para continuar monopolizando a fala. É uma tremenda de uma chatice. Isso tornou gente que lê duas páginas de um livro (ou duas linhas de postagem do Facebook), gente que se acha pronta para lançar opinião sobre tudo, como se fossem verdadeiros especialistas no assunto.

Por que o politicamente correto se tornou algo que acaba maquiando outra coisa? Porque você não pode refutar o argumento de determinadas pessoas de outra forma, pois elas vão se sentir ofendidas e desviar o rumo da conversa para algo que o torna um “opressor”.

Blog – Fale um pouco sobre a situação política nacional e local.
Não tenho formação especifica na área (política), mas a atual conjuntura política me levou a estudar por conta própria algumas questões históricas do nosso país e do mundo, o que levou a outros assuntos, que foram gerando mais curiosidade, questionamentos e não sei qual o limite em relação à busca por explicações, mas pretendo me aprofundar ainda mais.  

A grosso modo, a situação é grave. Até aí não vejo novidade. Mas ela é, ao mesmo tempo, bastante didática, o que pode ser algo positivo. Não lembro agora de nenhum outro momento no qual o brasileiro tenha percebido tanta coisa sobre sua própria sociedade. Antes, pouquíssimas pessoas paravam para falar, ler e escrever além do óbvio, o que era muito ruim, pois já somos uma nação pouco instruída, imagine então quando não temos estímulo algum para nos forçar a buscar entender certas coisas, né?!

Não acho que tenhamos chegado ao fundo do poço. Acho que ainda temos muita coisa a ser vivida; experimentada. Nossas instituições passaram a ser melhor entendidas, sobretudo por causa das informações que temos hoje.

Hoje, deixamos de ser somente o país do futebol e passamos também a ser um pais que discute política. Claro que ainda temos muito o que evoluir, pois na maior parte do tempo ainda discutimos no sentindo de brigar – embora eu tenha percebido uma tendência crescente de gente que vem percebendo que é possível trocar opiniões e chegar a um consenso sem necessariamente terminar uma troca de ideais sem necessariamente gerar inimigos.

No geral, colocamos muita carga nas nossas ideologias e até classificamos as pessoas exageradamente – entre extremos, direita versus esquerda. Não acho que tal divisão seja apropriada para os dias de hoje (talvez seja fruto de pouca informação ainda). Acho que é possível discutir política de forma que todos os lados gerem algo a ser ouvido, processado e utilizado como uma saída coletiva. Lógico que precisaremos sempre rever alguns conceitos, pois as sociedades vão mudando e não podemos deixar de acompanhar tais mudanças, pois elas influenciam nossas vidas.

No fundo, de forma geral, eu vejo melhoras, mas não sem antes sofrermos um pouco mais. Temos que entender que um ciclo da nossa política está acabando e os partidos e os políticos de vanguarda já perceberam isso. O problema para eles é que eles não conseguiram se renovar (não estavam preocupados além do “passar o bastão” para os filhos e netos). Ou seja, continuaram praticamente fazendo política da mesma forma que se fazia nos anos de 1980.

As mudanças na nossa sociedade trouxeram problemas para nossos políticos também. Hoje é comum encontrar jovens entrando para política, filiando-se aos partidos para propor eles mesmos as mudanças que eles querem para a sociedade – é a geração do “faça você mesmo” (do it yourself, em inglês).  Isso por si só já mostra que algo vem mudando, sobretudo porque já perceberam que só podem mudar as regras do jogo dentro do próprio jogo. Não tem como mudar nada estando de fora da política e política, como diria Charles de Gaulle, é coisa séria demais para deixar nas mãos dos políticos. A população precisa participar.

Não vejo mais espaço para os grupos que surgiram em resposta ao regime militar instaurado no Brasil na década de 1960. Estou falando do PT e do PSDB. Acho que ambos já serviram ao seu proposito e acabaram, como tudo na vida, que deve servir seu proposito e sair de cena. 

Não houve uma renovação em ambos os grupos e parte da população está perdendo o medo de dizer que não quer mais ter seus ideais representados pelos membros de tais partidos. Ainda teremos políticos eleitos do PT e do PSDB? Possivelmente sim, mas você vai perceber que não será tão fácil quanto antes. Estamos cientes de toda investigação que envolve líderes dos mesmos. Quem vai querer creditar seu dinheiro e suas decisões aos membros condenados do PT e do PSDB? Você emprestaria dinheiro para alguém que está sendo investigado por corrupção, que envolve exatamente enriquecimento ilícito? Eu não faria isso.

Acho que erramos muito, aliás, em depositar poder demais nas mãos de uma só figura (seja prefeito, governador ou presidente da República). Fazemos isso também na religião.

O que temos no Brasil é um sistema de governo que entrega poder demais nas mãos do executivo – é o “superpresidencialismo” – e isso muita gente sabe, mas não percebe o perigo. Acho que já passou da hora de adotar outro sistema de governo, mas isso deve passar por uma discussão com a sociedade. Muita gente tem medo do que desconhece pelo simples fato de não entender como funciona, o que é o oposto do que acontece na religião, onde as pessoas aceitam algo que é dito sem necessidade de questionamento profundo.   

No caso da política, ao meu ver, o problema maior é discutir querendo acelerar o processo. Acho que deveríamos ir com calma neste momento. Em uma situação assim, com os ânimos exaltados, acho que acelerar é correr um risco enorme de abrir espaço para discursos extremistas. As instituições democráticas deveriam servir exatamente para não acelerar certos processos, sem discutir melhor cada passo. Já erramos demais para nos darmos ao luxo de errar novamente.

E sobre a política local, eu vejo pouco porque acompanho de longe. Mas se tiver que arriscar um palpite eu diria que o povo anda mais exigente, embora menos do que deveria. Se você observar com certa isenção, o ex-prefeito venceu a eleição porque o povo parecia estar cansando da forma de gestão anterior a dele, mas perdeu basicamente pelo mesmo motivo. Foi tudo muito rápido e acho que esse tipo de resposta não é ruim. O atual prefeito não era minha primeira opção, mas em uma democracia, fazer esse revezamento é muito bom porque não deixar tempo para práticas duvidosas por parte do executivo. Acho que o ideal é ir revezando, exatamente para abrir espaço para novos políticos, o que é benéfico para a democracia. Dom Pedro II, durante o segundo reinado, enxergava assim e era por isso que os dois partidos da época – o Partido Conservador e o Partido Liberal – revezavam-se no poder.

Em relação ao poder legislativo, eu diria que houve um amadurecimento na forma como os vereadores debatem os temas e isso deve ter levado o povo a prestar mais atenção na câmara. É comum encontrar pessoas parando para ouvir, na rádio, ou ver, pelo Facebook as sessões da câmara municipal. Acho isto positivo.

Além disso, na última eleição, o eleitorado teve mais opções, tanto para o legislativo quanto para o executivo. Se isso não for algum indicativo de evolução, não saberia como classificar. Claro que ainda precisamos renovar mais, mas isso irá acontecer naturalmente já na próxima eleição municipal.

Ainda iremos ver algumas paixões afloradas do povo? Sim, mas isso não chega a ser algo tão alarmante. Não podemos tirar a liberdade do povo de também tratar a política como manifestação cultural. Isso seria querer censurar

Blog – Falando em religião, qual é a sua?
Acho que esta é a pergunta que mais me coloca em confusão.

A grosso modo eu diria que sou difícil de catalogar. Quando criança e adolescente eu tive uma orientação católica. Mas hoje eu não tenho problemas em ouvir alguém de qualquer tipo de orientação religiosas, seja a pessoa católica, protestante, mulçumana, budista, do candomblé, espírita ou qualquer outra orientação, até mesmo ateia ou agnóstica. Até já frequentei algumas igrejas espiritas e protestantes e fui à uma reunião – de passagem – do Movimento Hare Krishna na Irlanda. Mas não consigo acreditar tão facilmente no que se é pregado, se tiver que excluir outras possibilidades.

Por exemplo, como podemos dizer que só existe um Deus e que ele se chama Allah, se temos uma orientação cristã no Brasil (que aliás de Estado laico não tem nada)?

Como poderíamos convencer os índios tupis, os guaranis, os ianomâmis, os araras e dezenas de outros povos de que os deuses Tupã, Jaci, Guaraci Ceuci, Anhangá, Sumé não eram o “espirito do trovão”, “Deusa da noite”, “Deus do Sol” e etc.? Quando os portugueses cá chegaram, esses povos já tinham suas divindades, não é verdade? Eles já praticavam seus rituais, assim como o fazemos hoje, sem nem saber do que acontecia no outro lado do oceano. Logo, não consigo imaginar que cultuar apenas uma divindade, desprezando qualquer outras, faça algum sentindo. E como seria o paraíso, se cada um tem uma visão, que às vezes se difere tanto da visão dos outros?   

Acho mesmo que em pouquíssimo tempo, algo em torno de 70 anos, será muito difícil separar ciência da religião. Durante o século XX a ciência avançou enormemente. A religião, nem tanto. As pessoas começaram a questionar se a resposta para tudo estava mesmo em livros sagrados, escritos há milhares de anos, e que não traziam abertura para questionamentos, como os feitos pela ciência hoje.

O número de ateus e agnósticos cresceu bastante em todo o planeta. Parece-me que quanto mais contato com a ciência e a tecnologia um povo tem, mais afastados das explicações religiosas aquela comunidade vai ficando.

No final, acho importante acreditar em algo (em um Deus ou até mesmo em vários). Não vejo mal algum nisso, mas não podemos negar que quando estamos doentes – com doenças muito sérias – nós também esperamos que os medicamentos e procedimentos da medicina aos quais somos submetidos façam efeito imediato. Quando o homem conseguir descobrir as curas da AIDS e de todos os tipos de câncer (acho que estamos muito próximos da cura se tornar pública), estou certo de que muitos irão querer alongar seus dias aqui na Terra, mesmo sabendo da importância da morte para os religiosos (Isso mesmo, a morte é de extrema importância para quem é religioso, pois ela seria uma passagem, certo?)

Se você estivesse na beira da morte não iria querer prolongar seus dias, caso tivesse a oportunidade de fazer isso, tomando algum remédio desenvolvido pela ciência?

Blog – Quem é o principal responsável por tanta corrupção no Brasil?
Acho que a corrupção começa nos pequenos atos. Tentamos cobrar a correção dos atos dos outros, mas esquecemos de justificar os atos de corrupção que cometemos, por meio de deslizes como furar fila, não passar troco corretamente e outras ações que ferem os princípios morais e éticos. Lógico que querer penalizar uma sociedade toda por furar uma fila ou não passar um troco corretamente não seria a solução para nada, até porque não teríamos como penalizar todos.

Acho que o principal responsável pela corrupção é o conhecimento. Melhor dizendo, a falta dele. Como não temos uma educação voltada para valores e sim para números, temos esse déficit em toda a sociedade brasileira. Educamos demais para o sucesso profissional - para formar um “bom empregado” – e muitas vezes esquecemos os valores morais e éticos, que deveriam começar dentro de casa e ir às escolas e depois serem refletidos nas sociedades, ajudando a conduzir nossos atos.  

Como seria algo inatingível a curto e médio prazo, acredito que o exemplo, vindo especialmente de cima, seria um paliativo. Precisamos recuperar a confiança nas instituições brasileiras. Não tem como cobrar boa conduta quando elas mesmas não a fornecem. Dizem que somos iguais perante as leis, mas, na prática, as coisas não funcionam bem assim, e todos sabemos disso. No caso de cargos eletivos, podemos modificar tais realidades, mas em outros nem tanto, mas paciência! Temos que punir severamente estes envolvidos em escândalos milionários.  

No final, acredito que o brasileiro é responsável pela corrupção. Não acho que ela começou no Brasil ontem, pois já existia desde antes do Homo Sapiens pensar em colocar algumas regras (leis) em papiros, há muitos séculos – talvez bem antes da Revolução Agrícola.

Acho que entre as mudanças que queremos, estão leis que sejam um pouco mais praticáveis, para que possamos diminuir tanta sujeira e punir de verdade não somente o ladrão de galinha, mas também chefes de governo e estado, para proporcionar exemplos. A lei não é para todos?

Blog – Na sua opinião, há jeito para o Brasil? Para nossos municípios...
Sim, acredito que temos saída. Mas acredito que grandes mudanças vão requerer grandes ações. Talvez aí esteja o problema. Temos que primeiro nos perguntar até que ponto estamos dispostos a encontrar solução para nossos problemas. Muitos colegas estão satisfeitos da maneira que as coisas estão e é um posicionamento até compreensível, pois mudar algo requer muitas doses de trabalho extra e exposição, se o cara estiver em uma posição de educador, por exemplo.

Nossas instituições não estão “dando conta do recado”. Já faz muito tempo que vemos as instituições definhando. Claro que são as pessoas que são responsáveis pelas instituições quem precisam mudar primeiro, afinal, as coisas só funcionam porque as pessoas funcionam, certo?!

Por outro lado, operações como a Lava Jato trouxe uma esperança para o Brasil. Nunca houve nada parecido e com tanto serviço prestado ao país quanto a mesma. Ela não é perfeita e não está livre de críticas, mas pelo mesmo agora podemos mostrar à população que a corrupção está aí evidenciada, pelo menos – até certo ponto – rastreada.

É importante agora ser firme e mostrar que ninguém está acima de lei. A grande herança da Lava Jato deve ficar para as futuras gerações de brasileiros, que terão visto a operação como um exemplo. Exemplo no sentindo de ter existido, o que por si só já ajuda a acabar com aquela alienação “de que nada dá certo no Brasil”, que não deveria mais existir com tanta força na sociedade brasileira.

Blog – Qual a sua opinião sobre Lula, Bolsonaro, Ciro Gomes, Marina Silva, João Dória e outros políticos?
Começando com Lula, queiramos ou não, ele ainda é a maior liderança política do Brasil (está dentro das instituições de ensino; mobiliza sindicatos, CUT, MST e outros movimentos).

Embora já não tenha mais a mesma força que ele pensa que tem, ainda podemos ver um número muito elevado de pessoas que se dizem verdadeiros seguidores dele. Não acredito que será candidato a presidente na próxima eleição. Já foi condenado (em primeira instancia) e deve ainda receber penas maiores nos outros processos. Se fosse candidato, iria para o segundo turno, mas não sei se venceria pela rejeição dos grupos que ficariam do outro lado, fosse quem fosse o adversário.

Vejo um movimento grande da caravana dele, o que é normal para o período pré-campanha, mas não ouvimos propostas que realmente sirvam. Temos que lembrar que o momento histórico não é mais aquele que ele pegou quando foi eleito pela primeira vez e parte da sua equipe está fora do jogo, muitos presos. 

Bolsonaro é um mito, mas um mito criado na cabeça de quem o segue. Não tem, ao meu ver, projetos para o Brasil. Fala muita coisa óbvia, até concordo com algumas em termos de justiça, mas não aprofunda debates, desrespeitando o contraditório.
Não acho nem que será candidato caso Lula possa concorrer, pois vai correr o risco de sair da zona de conforto que tem sido ficar na câmara sem aprovar praticamente nada. Sobretudo se não logra êxito. Fala que é diferente, mas já tem uma família dentro da política, todos ocupando cargos. É estranho dizer que é diferente assim, não? Não está parecendo muito diferente das situações que vemos no RN, famílias inteiras, não é necessariamente o caso, dentro da política.
Ele tem seu público, mas acho que perderia fôlego. Se Lula não for candidato, a coisa deve ganhar outro caminho.

Acho Ciro Gomes, de todos, o mais preparado, mas aí seria preparado para que? Temos que considerar que qualquer um que venha a vencer a corrida presidencial vai ter que lidar com situações inéditas: menos recursos e mais necessidade de enxugar a máquina. Iria ele ter coragem de fazer isto?  No mais, acho que estava afastado da política (em termos de ocupar cargos) e seria uma opção a ser testada.

Marina Silva, assim como Dilma Rousseff, é carta fora do baralho. Não tem fôlego para ir até o final. Acho que ela é daquelas que aparecem apenas quando lhe são convenientes aparecer e não era nem a principal escolha do grupo dela nas eleições passadas; acabou sendo candidata por outras circunstâncias.

João Dória tem a vantagem de estar pouco desgastado, pois é “novo”. No entanto, talvez não tenha a mesma aceitação de Norte e Nordeste que Lula, por exemplo. Dória gosta de colocar o Petista em seus discursos e se for abordar a mesma lógica quando estiver falando para as duas regiões não vai emplacar. Acho que está indo relativamente bem como prefeito de São Paulo. É homem de coragem e está investindo no que faz de melhor: gestão e propaganda pessoal.  

Ainda estamos deixando de fora duas possibilidades: com e sem Lula. Com Lula candidato, eu vejo alianças mais fortes entre os opositores. Sem Lula na disputa, acho que teremos mais candidatos e com isto mais alianças fragmentadas, o que pode ser bom em termos de mais opções, mas pior em termos de alocar toda essa gente no período pós-eleições.

Há também a possibilidade do Partido Novo lança o treinador Bernardinho, dependendo do cenário político na época.

No final, você não me perguntou, mas sou contra o presidencialismo. Não acho nada interessante nesta fórmula que temos hoje (sistema presidencialista e forma de governo como sendo república). Acho as regras do parlamentarismo muito mais evoluídas e prefiro um parlamentarismo em uma monarquia do que em uma república, mas acho que aqui seria assunto para um outro momento.

  • Acho que os candidatos deveriam permanecer 6 anos nos mandatos, sem possibilidade de reeleição imediatamente, ou seja, seriam 6 anos dentro e 6 anos fora.
  • Acho que o povo deveria eleger os vereadores e o vereadores elegerem o executivo, que não seria apenas uma figura, mas um grupo. Seriam mais vagas dentro da câmara, mas os salários iguais, tanto para presidente da câmara quanto para qualquer outro cargo. E sem a possibilidade de aumento salario dentro dos 6 anos. Isso sendo estendido para todas as esferas (estadual e federal).
  • Eleições de todos os cargos em um mesmo ano e diminuição dos partidos para 4.
  • Fim de qualquer patrocínio público para partidos (fim do fundo partidário).
  • Fim do foro privilegiado no país. Ninguém deveria ser impedido de investigação (em nenhum dos três poderes).

É preciso tornar os cargos eletivos atraentes para quem tem ideais, ao mesmo tempo que “desatraente” para quem quer fazer uso dos mesmo em causa própria.

No mais, agradeço o interesse nas minhas opiniões. Não foram postas aqui para agradar ninguém e não devem ser vistas como verdades absolutas. Abraços!

Blog: Muito obrigado Bruno. O blog estará sempre ao seu dispor.

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