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PESQUISA: cientistas avaliam que a complexidade do diálogo e a trajetória das palavras em relatos infantis demonstram a relação com desempenho escolar

Fotos: Wallacy Medeiros. Sidarta Ribeiro, Natália Mota e Janaína Weissheimer
da UFRN e Nery Adamy da Maurício de Nassau participaram do estudo
Por Williane Silva

Como foram seus primeiros anos na escola? Pode ser que você lembre dos amiguinhos, do seu esforço para memorizar o abecedário, das brincadeiras na hora do intervalo, das tentativas de decorar a tabuada ou da professora que era chamada carinhosamente de “tia”. Para investigar a relação entre a estrutura das falas de crianças e a capacidade cognitiva, cientistas analisaram o relato de memórias recentes e remotas.

Publicado na revista “Mind, Brain, and Education”, o primeiro estudo que demonstra a relação entre a estrutura da fala de crianças com seus desempenhos acadêmicos foi realizado por um grupo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da Faculdade Maurício de Nassau e da Universidade da Califórnia (EUA).

De acordo com a pesquisadora do Instituto do Cérebro (ICe-UFRN), Natália Mota, o estudo começou medindo “a complexidade da forma como a criança organiza sua fala ao relatar suas memórias, desde as mais recentes até as mais remotas, a partir da análise de grafos de trajetória de palavras”.

As falas foram colhidas em entrevistas individuais com 76 crianças de seis a oito anos, no ambiente escolar, sobre recordações autobiográficas. O relato de memórias é importante por refletir associações espontâneas e revelar indiretamente o processo de pensamentos subjetivos. Dessa forma, o uso de abordagens computacionais, baseadas na Teoria dos Grafos, facilitou a “quantificação” das falas – cada palavra é representada por um nó e os links temporais entre as palavras consecutivas são as arestas.

Em seguida, os dados obtidos foram relacionados ao resultado da “Provinha Brasil”, teste nacional que avalia a alfabetização, e com medidas psicológicas, como o Coeficiente de Inteligência (QI) e a Teoria da Mente, a qual verifica  “a capacidade de entender o que o outro sabe, pensa, sente e acredita é diferente daquilo que você mesmo sabe, sente, pensa ou acredita”, explica Natália.

Observamos que crianças com melhor performance de leitura, também apresentam melhor performance de QI e em testes de Teoria da Mente, falam de suas memórias de maneira mais rica, organizada e menos repetitiva, formando grafos com mais palavras diferentes, ou seja, mais nós, conectando mais todas essas palavras ou nós, e repetindo menos as mesmas associações de palavras”, conta a cientista.

Foto: Reprodução. Estudo parte da análise de grafos de trajetórias de palavras
Nessa perspectiva, um repertório mais rico de palavras pode, portanto, ser entendido como uma maior capacidade para armazenar e recuperar associações de memorização, trazendo como consequência uma melhor estratégia de recuperação da memória ou uma resposta mais adaptável às novas regras do ambiente.

Para o grupo de pesquisadores, o estudo pode ajudara comunidade educacional a entender mais cedo quando um aluno não está se desenvolvendo de maneira adequada e quando precisa de ajuda, já que as formas atuais são de difícil acesso ou ainda são subjetivas.  Embora considerem que ainda ainda é cedo para afirmar, pois esse é o primeiro estudo para medir características de fala em crianças com desenvolvimento saudável, eles destacam que a pesquisa parece indicar uma maneira automatizada, barata e de fácil acesso para mensurar sinais de alerta sobre o desenvolvimento cognitivo.

Sobre a perspectivas da pesquisa, Natália considera que ainda falta muito a caminhar para termos essas análises como prática escolar. “Precisamos entender como ela se relaciona com outros aspectos da cognição, tais como memória de trabalho, por exemplo, e como são essas relações, para então entender que intervenções podem gerar modificações eficazes nesse aspecto do desenvolvimento infantil”, analisa.

Além de Natália Mota, também participaram do estudo Sidarta Ribeiro (ICe-UFRN), Mauro Copelli (UFPE), Silvia Bunge (Universidade da Califórnia), Nery Adamy (Faculdade Maurício de Nassau), Beatriz Madruga (Departamento de Psicologia-UFRN) e Janaína Weissheimer (ICe e Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas-UFRN).
Agência de Comunicação da UFRN

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